Uma não tão breve história | 25 de abril

25 abril 1974

fotografia de Alfredo Cunha

Com o fim da monarquia, o início da República e a primeira guerra mundial, o início do séc. XX em Portugal revelou-se bastante conturbado. Na verdade, todos os dias, onde houvesse comida, havia também roubos fossem em mercearias, armazéns, lojas ou até mesmo no serrado do vizinho. E quando chega a boa nova do fim da guerra, pouco depois chega também a gripe espanhola, que tiraria a vida a mais de 100 mil pessoas. A confusão instalou-se e só em 1920 houve oito Governos! O país encontrava-se numa tremenda crise, tanto que em 1926 haveria uma revolução militar que acabou por instituir uma ditadura.

Enquanto isso, em Coimbra, dá-se nota de um professor de Direito que havia assumido a regência da cadeira de Economia Política e Finanças. Tudo fazia crer que seria a pessoa indicada para pôr a economia do país novamente nos eixos e deste modo António de Oliveira Salazar é nomeado para o cargo de Ministro das Finanças, que desempenhou até 1932. E a revista Time escreve: "é impossível negar que o desenvolvimento económico record registado em Portugal não só não tem paralelo em qualquer outra parte do mundo como também é um feito para o qual a história não tem muitos precedentes”.

Bom, a partir daí a coisa escala. Salazar é nomeado Presidente do Conselho de Ministros e em 1933 surge uma nova constituição. Portugal entrava no “Estado Novo”, a ditadura fascista que se iria prolongar até 1974.

Enquanto isso, nos Açores em 1941, contavam-se 28 mil presos políticos depositados em três ilhas distintas: Terceira, Faial e São Miguel. A tradição de deportar para as ilhas homens com pensamentos liberais, insatisfeitos com a situação do seu país e com capacidade de converter palavras em ações, já vinha de séculos anterior.

“O garrote apertava cada vez mais, um sufoco bem pior do que os 100% de humidade marcados no higrómetro. O peso dessa pressão atmosférica e psicológica era notória no rosto do tio Jerónimo (...). o senhor Cardoso deu-lhe a volta, contando a história do seu cão (...) encontrado na rua (...), mas o malandro era sorrateiro e mordia as canelas pela calada. Lembrei-me do Salazar e batizei-o logo. Quando saí da prisão o tenente veio ter comigo, disse-me para ter juízo (...) e avisou-me: A primeira coisa que deves fazer é mudar o nome do cão (...). Por essa altura o senhor Cardoso também tinha um gato (...) daí em diante, o cão passou a chamar-se Sal e o gato Azar. A ideia de lhes por aqueles nomes surgiu (...) ainda antes de ser preso. Entretinha-se a reproduzir panfletos e distribuía-os pelas caixas do correio a altas horas da noite. O primeiro, “Sabonete fascistas não lavam a cabeça ao povo” (...) o segundo já causou algum incomodo: Agência funerária SAL & AZAR, Lda. Faça já a sua reserva. A vida está por um fio (F: Terra do Bravo, Enes C., pág. 58 e 59).”

Gostamos particularmente como Carlos Enes expõe o momento político insular face à ditadura, mas foquemo-nos no geral da história e passemos ao que foi o impulso do que viria a ditar o fim da ditadura.

Em 1958 Humberto Delgado, o “General sem-medo”, candidato à presidência da República, fala para milhares de pessoas sobre liberdade – seria o primeiro a falar abertamente em público, mas a sua voz seria calada para sempre em 1962.

Em 1961 começa a guerra colonial portuguesa, que mobilizou 90% da população masculina para a Guerra do Ultramar, contabilizando-se entre os militares 10 mil mortos, 20 mil pessoas com invalidez e mais de 100 mil vítimas entre os civis que viviam nas colónias. E volto a recorrer a Carlos Enes, que nos elucida como o poder da propaganda e de uma cultura “de gente acomodada, de gente feita de paciência, [em que] quase ninguém se preocupava com liberdade. [pois] Só quem vive necessita dela e quase todos eles vegetavam (...). Era certo que andavam descontentes, mas a insatisfação raramente se convertia em palavras e muito menos em gestos “Sempre foi assim.…” e estava tudo dito”. (F: Terra do Bravo, pág. 31) se pode transformar. “Se as colónias dominadas por outros países da Europa já tinham conseguido a independência, as de Portugal não poderiam escapar ao destino. Com dificuldade interiorizou outros valores: todos os povos tinham direito à liberdade de decidir o futuro e a explorar as suas riquezas como bem entendessem. O que o levou a chegar ao cerne da questão foi o cotejo com uma realidade bem perto da porta. (...) “E se os americanos, em vez de ocuparem só a Base das Lajes, decidissem tomar conta da ilha toda”. A partir de então, começou a entender melhor a atitude dos africanos que desejavam a carta da alforria (F: idem, pág. 114).”

Em agosto de 1968 Salazar cai duma cadeira e bate com força com a cabeça no chão o que veio a revelar a existência de uma lesão cerebral grave, sendo substituído por Marcelo Caetano (o país acredita, a princípio, que o regime iria melhorar); 1969: os estudantes protestam em Coimbra e daí até ao 25 de Abril de 1974, muito água ainda rolou.

48 anos de ditadura terminam com a Revolução dos Cravos, uma revolução pacífica liderada por um grupo de capitães do exército e população civil, revoltados contra o regime que conseguiram, efetivamente, derrubar o governo. Oficialmente não houve mortos. O povo saiu às ruas, enquanto uma mulher distribuía cravos vermelhos que os militares prontamente colocaram na arma como sinal de paz e liberdade, e o ditador em funções, Marcelo Caetano, abdica do poder e exila-se no Brasil.

Vitória, vitória e acabou-se a história (F: RTP ensina – o fim de Salazar).

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